Febre amarela: qual o risco de o surto atual virar uma epidemia?

Entrevista com um expert na área sobre a explosão de casos de febre amarela em municípios mineiros.

Veja Saúde
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em 13 de jan. de 2017
RS

REVISTA SAÚDE

REVISTA SAÚDE say

Como o senhor encara o surto de febre amarela em Minas Gerais?

AR

ANDRÉ RIBAS DE FREITAS

ANDRÉ RIBAS DE FREITAS say

A quantidade de casos é atípica. Desde que trabalho na área, há 20 anos, não vejo algo assim no Brasil. Precisamos entender o que está acontecendo e tomar as medidas cabíveis para conter esse surto.

RS

REVISTA SAÚDE

REVISTA SAÚDE say

Há risco de a febre amarela se espalhar pelas cidades ao redor do Brasil?

AR

ANDRÉ RIBAS DE FREITAS

ANDRÉ RIBAS DE FREITAS say

A transmissão desse surto ainda está em fase silvestre. Isso quer dizer que ela está mais restrita a regiões rurais e próximas de matas. Ou seja, a febre amarela não chegou a áreas urbanas. Para entender isso, precisamos compreender o ciclo da doença. Em um primeiro momento, seu vírus é espalhado pelos mosquitos Haemogogus e Sabethes, que vivem mais em matas, e infectam eminentemente macacos. Se um ser humano passa pela região, pode ser picado e desenvolver a doença. Se esse indivíduo vai para uma cidade e é picado por um mosquito Aedes aegypti, pode iniciar um segundo ciclo. Ou seja, ele vira um foco da doença, que pode ser picado por outro mosquito, que aí pica outro ser humano e daí em diante. Se isso ganha escala, pode afetar as cidades.

RS

REVISTA SAÚDE

REVISTA SAÚDE say

Mas esse é um risco real hoje de a febre amarela voltar às regiões urbanas?

AR

ANDRÉ RIBAS DE FREITAS

ANDRÉ RIBAS DE FREITAS say

Veja, o Aedes aegypti não espalha o vírus da febre amarela com a mesma eficácia que faz com o da dengue. Você precisaria de uma grande infestação de mosquitos para gerar uma epidemia. Mais do que isso, a febre amarela tem vacina. Em uma população com alta taxa de vacinação, a possibilidade de ela fugir ao controle é menor.

RS

REVISTA SAÚDE

REVISTA SAÚDE say

Mas é possível que a febre amarela se espalhe?

AR

ANDRÉ RIBAS DE FREITAS

ANDRÉ RIBAS DE FREITAS say

Sim, embora isso não é motivo para pânico no momento. Como já disse, os dados que estamos vendo não são normais, embora a febre amarela silvestre apareça em ciclos. Mas, para ela virar uma epidemia nacional, algumas falhas teriam que ocorrer. É importante saber o que está acontecendo em Minas Gerais para tomas as medidas efetivas. Não quero fazer conjecturas, mas muitas hipóteses são possíveis para uma situação dessas. Talvez o vírus da febre amarela tenha conseguido chegar a muitos Aedes aegypti, ou talvez haja um mosquito invasor, por exemplo. Ao investigar os infectados e os mosquitos da região, teremos respostas mais claras.

RS

REVISTA SAÚDE

REVISTA SAÚDE say

Todos da região devem se vacinar?

AR

ANDRÉ RIBAS DE FREITAS

ANDRÉ RIBAS DE FREITAS say

Sim. Inclusive, em zonas rurais afetadas os agentes públicos deveriam ir visitar as casas para vacinar os habitantes. Isso os protege e evita que se tornem um foco da doença.

RS

REVISTA SAÚDE

REVISTA SAÚDE say

Todo brasileiro tem que se vacinar?

AR

ANDRÉ RIBAS DE FREITAS

ANDRÉ RIBAS DE FREITAS say

Essa é uma questão delicada. Por um lado, estamos falando de uma doença grave, que mata metade das pessoas que atinge. Por outro, recomendar uma vacinação nacional não é pertinente, até porque não temos vacinas o suficiente e, acima disso, a medida seria pouco eficaz para controlar focos regionais. Fora que, em casos raros, a vacina da febre amarela pode gerar reações adversas graves, que chegam a matar. Isso é bem raro, mas vale destacar que acontece.

RS

REVISTA SAÚDE

REVISTA SAÚDE say

No momento atual, portanto, o risco está mais restrito a moradores dessa região e viajantes?

AR

ANDRÉ RIBAS DE FREITAS

ANDRÉ RIBAS DE FREITAS say

Se for visitar ou morar em regiões endêmicas, o recomendado é se vacinar. O curioso é que, no Brasil, há muitas áreas de risco que cobram a vacinação, mas pouca gente sabe disso, até porque elas são menos populosas. Só não pense que elas estão limitadas a uma ou outra região. Quem vai a Ribeirão Preto [interior de São Paulo], por exemplo, deveria tomar a vacina. Saber se o local onde você vive ou para onde pretende viajar demanda a imunização é essencial [saiba mais depois da entrevista]. E, claro, do ponto de vista individual, sempre vale passar repelente e usar telas para não entrar em contato com o mosquito.

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